Ciência e Saúde

“OUVIR O PLANETA” NO NATIONAL GEOGRAPHIC SUMMIT 2019

A terceira edição do National Geographic Summit decorreu a 29 de abril, no Porto, sob o tema “Planeta ou plástico? Escolha o planeta”. O JUP esteve presente e conta como foi. Por Mariana Miranda.

Depois de duas edições em Lisboa, o National Geographic Summit escolheu o Porto como palco para mais um encontro de ideias, desta vez centrado na problemática ambiental da poluição por plásticos. Incluído na iniciativa “Planeta ou Plástico?” da National Geographic, o evento, que decorreu no final de abril, trouxe à Invicta cinco oradores internacionalmente reconhecidos para, através dos seus testemunhos, contribuir para a consciencialização da população num momento que é de “ouvir o planeta”.

A sala Suggia, considerada o coração da Casa da Música no Porto, foi o palco eleito para o evento que, segundo a organização, teve lotação esgotada. Assim, terão sido mais de 1200 pessoas as que foram recebidas por João Moleira na sessão de boas-vindas ao Summit. Coube ao jornalista da SIC a apresentação e moderação, tendo acompanhado os participantes ao longo das cerca de 4 horas do evento, introduzindo os oradores convidados e reservando alguns minutos para conversar com eles depois de cada intervenção.

Sessão de boas-vindas

A sessão de boas-vindas contou ainda com abertura oficial do Summit por Deborah Armstrong, a vice-presidente executiva da National Geographic Partners na Europa e África, e por Filipe Araújo, vice-presidente e vereador para a Inovação e Ambiente da Câmara Municipal do Porto (CMP).

Na intervenção de Deborah Armstrong, ficou patente que a organização espera que momentos como este proporcionem a consciencialização da população e que ela adote uma posição ativa na resolução do problema em discussão. Para tal, o objetivo foi conjugar “storytelling” com ciência, para levar todos a participar na missão que é a de ter um “planeta em equilíbrio”.

Por sua vez, Filipe Araújo partilhou o papel que a CMP tem tido no que toca à promoção da sustentabilidade da cidade e algumas iniciativas que têm sido levadas a cabo. Num discurso que focou em três tópicos, Filipe Araújo começou por explicar a importância de perceber o papel decisivo das cidades na procura de soluções ativas para os problemas ambientais. De seguida, afirmou o compromisso da CMP em liderar pelo exemplo e em inspirar e ser um facilitador da mudança de comportamentos junto da população e empresas. Terminou abordando a temática da economia circular e a emergência global que constitui mudar de paradigma.

O poder da fotografia

Terminada a sessão de boas-vindas, o palco recebeu Brian Skerry, um dos mais conceituados fotógrafos subaquáticos do mundo e National Geographic Fellow. Num dos discursos mais apaixonados da tarde, Skerry contou aos participantes do Summit como a criança que cresceu numa pequena cidade de classe operária e um dia sonhava tornar-se fotógrafo da National Geographic, hoje viaja por todo o mundo para documentar a luta pela sobrevivência de vários organismos marinhos e que até já teve a oportunidade de fazer snorkeling com Barack Obama. Confidenciou mais tarde, em conversa com João Moleira, “I never imagined that I would advocate for the ocean, I just wanted to do a cool thing”, mas atualmente o cuidado pelo oceano é uma responsabilidade que sente que precisa de ter.

Assim, com a experiência de uma vida de exploração do oceano, Skerry mostrou como a fotografia pode ser uma ferramenta poderosa para contar uma história, sobretudo de algo que não é tão facilmente compreendido pelo público em geral por estar debaixo de água, nos oceanos. A cada série de fotografias que Skerry partilhou com o público, várias histórias foram sendo contadas, que falaram das duas tartarugas presas em resíduos no oceano que encontrou em apenas três dias, da luta pela sobrevivência da foca-da-Gronelândia, da crise global resultante da pesca excessiva e com práticas insustentáveis e como algumas espécies estão à beira da extinção. Terminou, abordando potenciais soluções, dando exemplos de algumas boas práticas de aquacultura e como o futuro está em passar da “caça para o cultivo” nos oceanos, como se faz em terra, e na necessidade de criar reservas marinhas.

Através do olhar dos animais

Lucy Hawkes, ecologista fisiológica e doutorada na Universidade de Exeter em 2007, seguiu uma abordagem semelhante à de Brian Skerry e focou a sua comunicação em contar algumas histórias, sobre aqueles que diz serem os “animais atletas” e pelos quais declara ser fascinada. Numa intervenção entusiasta que encantou a audiência, Lucy Hawkes mostrou como se pode ver o mundo através dos olhos dos animais com recurso ao trabalho de campo e usando tecnologias que permitem rastrear vários seres vivos.

Lucy Hawkes partilhou algumas das suas descobertas, falando sobre as migrações das tartarugas marinhas, o atum e uma libélula que voa sem parar da India até à costa africana. Falou ainda sobre a migração dos gansos-de-cabeça-listada, que cruzam os Himalaias, tendo já sido avistados a voar no monte Evereste, um dos locais mais remotos e de difícil acesso ao Homem, mas no qual a poluição por plásticos também já é visível.

A ciência do problema

Antes da pausa para o coffee-break, subiu ao palco Paula Sobral, investigadora e professora da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa. Especialista em microplásticos e lixo marinho desde 2008, coordenadora de alguns projetos na área e fundadora da Associação Portuguesa do Lixo Marinho, Paula Sobral levou ao Summit uma palestra mais técnica do que as anteriores, explicando à audiência a ciência por detrás da poluição dos oceanos pelos plásticos.

“Preciso mesmo disto?”

Paula Sobral começou por falar sobre a fonte desta poluição, mostrando os valores mais recentes, em que a comunidade científica estima que 80% do lixo marinho tem origem terrestre. De seguida, apresentou os vários impactes conhecidos da poluição a nível socioeconómico e ecológico na costa e oceano, e o tempo médio que demora a degradação dos poluentes no oceano. Os microplásticos, partículas de plástico de dimensão inferior a 5 mm, foram discutidos com mais detalhe numa segunda parte da apresentação, que terminou com Paula Sobral a desafiar a audiência a responder a perguntas como “Preciso mesmo disto?” e “Preciso mesmo disto em plástico?” quando cada um compra bens.

Economia Circular

Jamie Butterwoth, ex-CEO da Fundação Ellen MacArtur, atual membro do Comité de Investimentos da Circularity Capital, business fellow da Oxford University’s Smith School e especialista em economia circular, foi o quarto orador convidado da tarde. Com uma palestra orientada para as vertentes de gestão, economia e negócios, Jamie Butterwoth explicou o conceito de economia circular e desafiou a audiência a repensar a atual economia.

Ao longo desta palestra foram introduzidos vários princípios ligados à economia circular e apresentados alguns produtos e serviços a ter como exemplo. Jamie Butterwoth guiou ainda a audiência ao longo de uma lista de oito regras a ter em atenção que, a título de exemplo, incluem a que relembra que nem todos os plásticos são iguais e nem todos são maus, como é o caso do material de plástico utilizado ao nível hospitalar. Uma das regras que foi repetidamente defendida é que os resíduos têm de ser vistos como potenciais recursos numa economia circular.

Já após o término da apresentação, João Moleira questionou Butterwoth acerca do que seduz as empresas a implementar este tipo de abordagem aos seus negócios, sendo que, segundo o orador, tal acontece quando as empresas querem definir uma determinada posição na economia, para cumprir a legislação e/ou por pressão por parte dos consumidores.

Desperdício Zero

A última intervenção do Summit coube a Claire Sancelot, ativista do movimento Desperdício Zero (“Zero Waste”) e empreendedora na Malásia, onde abriu a primeira loja de Desperdício Zero do país. Numa intervenção que constituiu uma aula, em estilo descontraído, de como reduzir drasticamente os resíduos que cada um produz no dia-a-dia, a audiência ficou munida de vários truques para alcançar um estilo de vida mais sustentável e fazer parte da solução.

Claire Sancelot partilhou como mudou os comportamentos que tinha em França e em Nova Iorque, quando se mudou para Hong Kong e foi mãe, tendo percebido que doar as roupas velhas e separar os resíduos para estes serem reciclados não era suficiente. Motivada a tornar a sua família sustentável e garantir um estilo de vida saudável para as filhas, converteu-se ao movimento Desperdício Zero. Para tal, defende que reciclar deve ser feito só em último recurso e primeiro é necessário recusar alguns itens do nosso dia-a-dia, reduzir o consumo de bens, reutilizar e fazer compostagem. Foram dados inúmeros exemplos de pequenas alterações que podem ser adotadas na cozinha e na casa-de-banho de cada casa e que reduzem os resíduos produzidos. No final, Claire Sancelot desafiou o público a fazer o “Zero Waste Challenge” durante 3 dias.

Encerramento

O National Geographic Summit 2019 terminou com o regresso dos cinco oradores ao palco e a transmissão um pequeno vídeo que tinham gravado para motivar a audiência a assumir o compromisso pelo planeta.

Da parte da organização, ficou evidente o interesse continuar a realizar este evento, sendo que na intervenção de Deborah Armstrong na sessão de boas-vindas já fora anunciado que duas novas exposições fotográficas vão ser brevemente realizadas no Porto, no seguimento do sucesso da exposição Photo Ark.