Ciência e Saúde

TRANSFERÊNCIA DE MICROBIOTA INTESTINAL PROMETE ATENUAR AUTISMO

O conjunto dos microrganismos que colonizam o intestino pode não ser a causa para o autismo, mas um estudo publicado na revista científica Scientific Reports mostra que a transplantação fecal da microbiota pode atenuar os sintomas da doença.

Um grupo de investigadores da Arizona State University publicou, em março, um artigo que descreve um ensaio clínico de transplantação fecal da microbiota com resultados prolongados no melhoramento de sintomas associados a transtornos do espectro autista.

Composto por um conjunto de procedimentos, este ensaio levou a uma melhoria dos sintomas gastrointestinais e comportamentais de pacientes com transtornos do espectro autista. Através da transplantação fecal da microbiota de indivíduos saudáveis, possibilita-se a recolonização do intestino do paciente com microrganismos comensais, ou seja, não patogénicos, que regularizam o microbioma intestinal.  A maioria dos 18 participantes do ensaio reportaram que, dois anos após o ensaio, a melhoria nos sintomas se manteve. Verificou-se também um aumento da diversidade bacteriana. Este trabalho revela que a transferência da microbiota pode ser uma terapia para pacientes com transtornos do espectro autista com problemas gastrointestinais concomitantes.

A associação entre microbiota e autismo já tinha sido reportada anteriormente. Alguns estudos realizados nos Estados Unidos no final dos anos noventa já mostravam que crianças com transtornos do espectro apresentavam alterações nos tecidos do esófago, estômago, intestino e cólon. Assim, a administração de probióticos é sugerida como uma forma eficiente de tratamento para alguns dos sintomas gastrointestinais do espectro.

Também na Arizona State University, em 2011, um grupo de investigadores tinha já tinha encontrado uma correlação entre a severidade dos sintomas de pacientes com transtornos do espectro autista com condições gastrointestinais. Em comparação com crianças saudáveis, as 55 crianças que participaram no estudo apresentavam diferenças significativas em termos nutricionais e metabólicos. Outros artigos de investigação reportam que existem também diferenças no microbioma destes pacientes comparativamente a indivíduos saudáveis.

A transplantação fecal é uma das abordagens terapêuticas mais eficazes para infeção com Clostridium difficile. De acordo com a Direção Geral de Saúde (DGS), esta bactéria está naturalmente presente na flora intestinal, mas um desequilíbrio desencadeado por administração de antibióticos pode levar a que a bactéria se multiplique e cause sintomas severos.

A microbiota é o conjunto de bactérias e outros microrganismos que colonizam o corpo humano. Um consórcio de investigadores catalogou os microrganismos que existem no intestino humano, tendo concluído que o órgão hospeda, pelo menos, 160 espécies por indivíduo, e que há 1100 espécies prevalentes na comunidade. A variabilidade existente está associada a diversos fatores, como sexo, etnicidade, idade ou dieta.

De acordo com o Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge, o autismo é uma condição médica que afeta o sistema nervoso central e se manifesta na infância. Caracteriza-se por dificuldades de comunicação e de interação social, assim como comportamentos, interesses ou atividades repetitivas.

Existem diversos trabalhos que evidenciam a existência do chamado eixo intestino-cérebro. Este eixo será composto por vasos sanguíneos e linfáticos. Em doenças como Parkinson e Alzheimer, é comum verificar que os indivíduos afetados apresentam sintomas gastrointestinais crónicos. Estas doenças, tal como os transtornos do espectro autista, são definidas tanto por fatores ambientais como genéticos. Também já foi documentada uma relação entre desequilíbrios da microbiota e cancro. Esta associação entre a microbiota humana e certas doenças só foi recentemente desenvolvida e tem sido continuamente alvo de investigação.

O artigo pode ser consultado no site da revista Scientific Reports.