Ciência e Saúde

O FUTURO DAS ESPECIALIDADES MÉDICAS DISCUTIDO NA FMUP

Realizou-se, nos dias 6 e 7 de abril, o congresso de especialidades médicas MED Win 5.0 – A window into medical careers, no Centro de Investigação Médica (CIM) da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP). Participaram neste congresso alunos de medicina e médicos recém-formados de várias escolas médicas e hospitais do país. Por Ana Amarante.

Era um sábado de manhã chuvoso e o auditório do CIM encheu para a sessão de abertura que daria início a mais um MED Win. Mas, porque o tempo era curto para tudo o que havia para discutir, cedo chegou a primeira sessão plenária dO congresso, com o tema “Nova prova, novo SNS?”.

Na sua comunicação, a secretária de Estado da saúde, Raquel Duarte, refletiu sobre a necessidade da adequação do número de estudantes e currículos, o que se traduzirá na melhoria da formação pré e pós-graduada, ressalvando que quaisquer mudanças demoram o tempo desta formação a fazer efeito. O coordenador do Conselho das escolas médicas portuguesas, Fausto Pinto, apresentou os números do excesso de alunos para a capacidade formativa: todos os anos formam-se 1885 alunos, para os ideais 1175.

Para o bastonário da Ordem dos médicos, Miguel Guimarães, a nova prova de acesso à especialidade vai mudar a forma como o ensino médico está estruturado em Portugal, com maiores repercussões no 6º e último ano: a prática clínica será cada vez mais privilegiada.

O que leva um médico a enveredar por uma especialidade médica ou cirúrgica esteve em discussão na segunda sessão plenária, “Estetoscópio ou bisturi?”. Pelo estetoscópio, o oncologista pediátrico Armando Pinto focou-se no que é necessário para se ser um bom médico, e nas capacidades humanas do exercício da medicina que correm paralelas ao conhecimento científico. Sobre a dificuldade em lidar com casos difíceis de doença oncológica em crianças, Armando Pinto realçou a melhor sobrevivência das crianças, com recuperação e cura em 80% dos casos, e deixou uma nota para reflexão: “Se forem ao IPO, não veem os oncologistas com ar desalentado, mas sim a passar a grande velocidade para resolver problemas.”

“A questão não será estetoscópio ou bisturi porque eventualmente escolhe-se uma especialidade, mas o importante é gostar de pessoas.”

Ortopedista em representação do bisturi, José Carlos Noronha, contou a forma natural como enveredou por uma carreira na cirurgia ortopédica após várias lesões no joelho. “A questão não será estetoscópio ou bisturi porque eventualmente escolhe-se uma especialidade, mas o importante é gostar de pessoas.” Foi com esta mensagem que o moderador António Sarmento encerrou a discussão, acrescentando ainda “gostem de medicina, gostem de clínica (…), então tanto faz.”

À semelhança do que aconteceu em anos anteriores, os participantes puderam escolher um conjunto de sessões paralelas, nas quais contactaram com um orador envolvido nas suas especialidades de eleição. Durante estas sessões, foram abordados o âmbito da especialidade, o programa de formação, a possibilidade de emigração e reconhecimento no estrangeiro, entre outros aspetos práticos.

Nas mesas redondas, que decorreram na manhã de domingo, os participantes tiveram a oportunidade de esclarecer as suas dúvidas em relação ao internato de Formação Geral, com médicos internos de diferentes hospitais do país. Também houve espaço para o aprofundamento de algumas técnicas, em workshops práticos que foram da reanimação pediátrica aos acessos vasculares, cobrindo assim um conjunto alargado de áreas da medicina.

Novidade desta edição, a Competição Clínica permitiu aos participantes testar os seus conhecimentos com um conjunto de casos clínicos baseados no formato da nova prova de acesso à especialidade.

A terceira sessão plenária, subordinada ao tema “Medicina no estrangeiro”, foi moderada por Fátima Carneiro, anatomo-patologista, investigadora e professora da FMUP.

Bítia Vieira, médica interna de neurologia em Berlim, apresentou a sua experiência nesta cidade, com uma abordagem diferente ao trabalho do interno, com uma prática clínica mais extensa. “Deram-me muita responsabilidade logo de início”, disse Bítia Vieira, sublinhando um aspeto que considera diferenciador em relação ao internato de especialidade em Portugal.

“(…) têm de ser agentes ativos do vosso futuro.”

Para falar de um percurso menos habitual, o orador seguinte foi o médico endocrinologista a trabalhar na farmacêutica MSD, João Conceição. Numa conversa via Skype a partir de Singapura, explicou que a emigração surgiu como o caminho natural para atingir o objetivo de realizar investigação que impactasse de forma global o maior número de doentes possível. Fátima Carneiro realçou a responsabilidade e espírito de iniciativa necessários para a procura de uma carreira no estrangeiro, antes e após a especialização, tendo encerrado a sessão com um conselho aos estudantes presentes: “têm de ser agentes ativos do vosso futuro.”

A “Medicina extra-ordinária” fechou as sessões plenárias deste congresso. Alexandra Leitão, médica integrante da equipa de Viatura Médica de Emergência e Reanimação do Instituto Nacional de Emergência Médica, explicou como adquirir esta competência, e sublinhou o desgaste físico e psicológico inerente ao auxílio em situações de emergência médica. Durante a discussão, foi ainda referida a possibilidade desta competência se diferenciar em especialidade médica.

A medicina aeroespacial foi desmistificada pelo presidente da Sociedade de medicina aeroespacial portuguesa, Rui Pombal, também médico da TAP. Nesta comunicação, abordaram-se temas como o que deve um médico fazer em caso de emergência a bordo de um avião e o futuro deste tipo de medicina no caso da democratização das viagens espaciais.

Pela medicina militar, o major médico do exército português Tiago Loureiro abordou os desafios de quem faz medicina em teatro de guerra, com uma componente imprevisível e forte cooperação internacional. O congresso terminou com a entrega de prémios da Competição Clínica e uma reflexão sobre o fim de semana por parte de Estela Sousa, da AEFMUP. De acordo com Estela Sousa, “foram quatro meses de preparação, que culminaram num congresso que excedeu as nossas expetativas. Tal não teria sido possível sem a Comissão Organizadora, que foi brilhante.”

As opiniões dos congressistas foram positivas. “De entre os congressos direcionados ao futuro das carreiras médicas a que já assisti, o MED Win é, sem dúvida, o de maior dimensão! A organização foi excecional e os oradores de grande relevo no panorama da medicina nacional”, é a opinião de Filipa Peres, aluna do 4º ano. Outros participantes realçaram a utilidade deste tipo de iniciativas, como Ana Isabel Romeiro, aluna do 4º ano que destaca: “O MED Win é o congresso onde podemos esclarecer todas as nossas dúvidas e ficar a saber mais sobre o dia-a-dia das especialidades médicas que mais nos atraem; as respostas são-nos dadas de forma aberta, realista e sem quaisquer tabus.”