Ciência e Saúde

NA LIBÉRIA INVESTIGA-SE A SÍNDROME PÓS-ÉBOLA

Num estudo publicado a 7 de março, na revista The New England Journal of Medicine, investigadores da Libéria e dos Estados Unidos caracterizaram uma síndrome pós-infeção por ébola. Os resultados indicam, além da maior incidência de alguns sintomas, a persistência do material genético do vírus no organismo humano durante três anos. Por Ana Amarante.

Durante um ano acompanhou-se, num estudo coorte, um grupo de sobreviventes de ébola, juntamente com os seus controlos saudáveis, que eram contactos próximos sugeridos pelos próprios sobreviventes, e registou-se que nos sobreviventes existe um maior número de queixas de dores musculares e articulares, perdas de memória, dor abdominal, cansaço, dores de cabeça, sintomas urinários e uveítes (infeções oculares). Num subgrupo foram também analisadas amostras de sémen, verificando-se que o RNA do vírus persiste no sémen dos sobreviventes até três anos após o início dos sintomas da síndrome pós-ébola.

O vírus do ébola é responsável por uma febre hemorrágica grave e, muitas vezes, fatal, e as suas epidemias ocorrem por surtos auto-limitados devido à sua gravidade, sendo a África Ocidental a região mais afetada, com a Serra Leoa, Libéria e República da Guiné a registarem o maior número de casos e de mortes. As principais vias de transmissão são o contacto próximo e direto com fluidos corporais, como o sangue, e o contato indireto através de objetos contaminados. Existe ainda a possibilidade de transmissão por via sexual.

Durante o surto de ébola na África Ocidental de 2014-2016 verificaram-se mais de 28.000 infeções e cerca de 11.000 mortes. Entre os sobreviventes, outros estudos atestam a existência de um conjunto de sinais e sintomas a que a comunidade científica tem dado o nome de síndrome pós-ébola. As sequelas mais comuns têm sido agrupadas em manifestações de ordem muscular, neurológica e oftálmica.

Atualmente, a Organização Mundial de Saúde considera que o RNA do vírus persiste no sémen por, no mínimo, 90 dias. Este novo estudo vem alertar para a possibilidade de a transmissão sexual poder ocorrer durante, pelo menos, os três primeiros anos após a infeção inicial.

O estudo tem a duração prevista de cinco anos, pelo que estes são resultados preliminares. Ainda assim, apontam no sentido da existência desta síndrome pós-ébola. Contudo, o mau estado de saúde da população geral nos países normalmente mais afetados pelo vírus significa que talvez nem todos os sintomas que são reportados pelos sobreviventes se devam exclusivamente à infeção. Isto pode ter consequências a nível das políticas de saúde pública relacionadas com o ébola e com as suas repercussões, mas também das políticas de prevenção da doença de um modo geral.

No futuro, espera-se que se possa vir a caracterizar de forma mais específica esta síndrome pós-ébola, de modo a confirmar-se que, por um lado, ela ocorre com a gravidade e frequência anteriormente descritas e, por outro, como poderão os países mais afetados adotar medidas estratégicas de combate às sequelas da doença.

O artigo está disponível para consulta no site da revista científica The New England Journal of Medicine.

 

Artigo por Ana Amarante. Revisto por Ana Sofia Moreira.