Ciência e Saúde Onde andam os nossos cientistas?

A MÉDICA PORTUGUESA QUE INVESTIGA O CANCRO EM TORONTO

Isabel Sousa Pimentel é médica oncologista em Toronto. Estudou no Porto e rumou ao Canadá, onde se tem realizado profissionalmente. Quais as perspetivas da cientista sobre a área em que trabalha? Com a curiosidade aguçada, o JUP foi ao seu encontro. Por Álvaro Paralta.

O ponto de partida? Porto, a cidade invicta. É aqui que Isabel inicia o seu percurso académico e profissional. Concluiu o mestrado integrado em Medicina, na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP), na área da Ginecologia Oncológica. Realizou internato em Oncologia Médica no Centro Hospitalar de São João e colaborou como assistente voluntária na mesma Faculdade. Concluído o internato, trabalhou como especialista em Oncologia Médica nas Unidades de Mama e Ginecologia, no Instituto Português de Oncologia (IPO) do Porto. Nas palavras da cientista, percebe-se o inconformismo e a ambição. Terão sido estes os motivos da sua ida para a metrópole canadiense?

O restabelecimento de objetivos

Ainda médica no IPO do Porto, Isabel redefine o seu percurso. “Queria aprender mais e noutros moldes” – contou ao JUP. Qual o próximo destino? Canadá. A mudança deve-se ao desejo de aventura e ao desafio de trabalhar com Pamela Goodwin, uma cientista reputada na área da Oncologia de Mama. “Queria sair da minha zona de conforto, e isso para mim implicou sair da Europa” – afirma Isabel Pimentel. Metas como trabalhar num hospital público estavam estabelecidas a priori. Após entrar em contacto com Pamela, é aceite num Clinical Research Fellowship, financiado pela Lunenfeld-Tanenbaum Research Institute. “Tudo o que fiz depois, devo-o a ela.”- contou Isabel.

“Queria sair da minha zona de conforto, e isso para mim implicou sair da Europa.”

Neste novo desafio, conjuga consultas, investigação e formação. Divide-se entre as clínicas de mama e de risco familiar – especializada em doentes com alterações genéticas patológicas e hereditárias com propensão para desenvolverem cancro de mama – no Mount Sinai Hospital, em Toronto, e a clínica de ginecologia do Princess Margaret Cancer Center, na mesma cidade. “Esta experiência ultrapassou as expectativas, a nível científico e pessoal. O ambiente académico com discussão multidisciplinar e a nível molecular é um estímulo e um desafio […] Aqui vive-se numa fusão de cores e formas de ser, onde a liberdade é o agregador e a intolerância proibida”. A adrenalina que imprime no seu percurso é uma constante.

Isabel Sousa Pimentel estudou no Porto e é médica oncologista em Toronto.
Isabel Sousa Pimentel estudou no Porto e é médica oncologista em Toronto.

“Aqui vive-se numa fusão de cores e formas de ser, onde a liberdade é o agregador e a intolerância proibida.”

De momento, a médica portuguesa coordena um projeto de investigação que estuda a associação entre composição corporal, índice de massa corporal (IMC) e fatores metabólicos associados à obesidade, por exemplo, insulina e glicose, em doentes com cancro de mama em estádio inicial. Posteriormente será estabelecida uma relação entre estes fatores e a sobrevivência de doentes com esta patologia.

A investigação

Segundo a investigadora, “já é reconhecido que a obesidade (definida como IMC ≥30Kg/m2) aumenta o risco de recidiva por cancro de mama”. Apesar de não se saber como isto acontece, a comunidade oncológica suspeita que esta não seja a melhor forma de quantificar gordura corporal. Porquê? Uma vez que este tipo de medição não distingue massa gorda (adiposidade) de massa muscular. “É interessante porque os endocrinologistas já reconheceram isso há muitos anos e usam outras medidas para quantificar adiposidade […] nós continuamos a usar IMC como medida de adiposidade, mas essa correlação não é absoluta.” – comentou.

A oncologista deu o exemplo da Sarcopenia, uma condição clínica de perda de massa muscular. Doentes nesta condição “têm maior risco de toxicidade à quimioterapia e imunoterapia, assim como maior mortalidade global, independentemente do valor de IMC”. Deste modo, “o IMC apresenta-se como um ‘atalho’ para definir massa gorda ou composição corporal”.

O projeto de investigação liderado por Isabel Pimentel tem como objetivo perceber até que ponto a avaliação da composição corporal de um indivíduo realizada por TAC (Tomografia Axial Computorizada) confere maior fiabilidade do que o IMC; como se distribui pelo corpo a adiposidade e a massa muscular associadas a um determinado perfil metabólico; e identificar “qual o perfil ‘fenotípico-metabólico’ que coloca o doente com cancro de mama em maior risco de recidiva”. Tendo estes dados apurados, desenvolver-se-ão ensaios clínicos que terão como intervenientes exercício físico e fármacos associados às vias metabólicas alteradas.

Isabel Sousa Pimentel com uma estudante de Doutoramento.
Isabel Sousa Pimentel acompanhada por Ana Lohmann, estudante de Doutoramento.

A Oncologia em Portugal

A ideia de voltar para Portugal não está fora de planos, “mas tudo depende dos projetos, dos desafios”. No nosso país, o trabalho que desenvolvia enquanto oncologista médica era exclusivamente assistencial, o que implicava dar consultas de segunda a sexta. Com esta rotina, não sobrava muito tempo para se dedicar a novos projetos. “É uma grande limitação que não beneficia ninguém, e em particular o doente.”- afirmou.

Segundo a oncologista, “estamos na era da competitividade”. Como tal, há ferramentas que parecem ser essenciais para responder a esta condição. Quais? Tempo, motivação e financiamento. Esta é a chave do sucesso que, aliada ao desenvolvimento de novos projetos envolvendo hospitais e centros universitários, levará à expansão da sua área. Apesar da importância destes fatores, a investigadora deixa o alerta de que o sucesso dependerá “da Equipa e não da Instituição” .

Tendo trabalhado em centros de investigação de referência, tanto portugueses como estrangeiros, Isabel realçou que “se pratica Medicina de muita qualidade em Portugal […] com os mesmos standards internacionais”, apesar de o financiamento não ser igualmente concorrente. “O que é de louvar.”- comentou.

Os pontos positivos são muitos, mas há margem para progredir. Organização, gestão dos serviços, formação e investigação são alguns dos pontos que merecem mais investimento. A médica reforçou também que a Investigação não se deve cingir apenas ao Laboratório. Deverá, pelo contrário, envolver atividade laboratorial, clínica e controlo de qualidade.

“Na área do cancro de mama apresentamos globalmente os mesmos resultados que os grandes centros europeus.”

Em Portugal tem-se feito um bom trabalho. “Na área do cancro de mama apresentamos globalmente os mesmos resultados que os grandes centros europeus.”- expôs. A investigadora dá o exemplo do IPO do Porto que “recebe cerca de 1000 novos casos de cancro de mama por ano”. Igual número de casos recebem os centros de investigação onde trabalha. O instituto portuense “tem investido tempo e recursos […] e o número de ensaios clínicos nesta área de patologia tem gradualmente aumentado.”- referiu.

A mudança de mentalidades é um dos fatores imprescindíveis no que concerne à promoção da investigação. “Fiquei surpreendida quando cá me apercebi que o doente procura os Ensaios Clínicos, e não o contrário”. A isto acresce o excesso de burocracia, a desorganização e um sentido de pertença egoísta que não permitem a emersão de novas ideias.

Como exemplo de coordenação e organização, Isabel fez referência à Hold’em For Life, uma organização sem fins lucrativos para a investigação em Oncologia. Esta entidade, da qual faz parte, é financiada por doadores. Trata-se de um projeto que envolve uma reunião mensal, onde cientistas de diferentes áreas e instituições, da investigação básica à clínica, colaboram “no sentido de definir quais os melhores projetos a serem implementados”. A oncologista acredita que também nós podemos ter um projeto deste tipo, adaptado em dimensão mas funcional. “Temos gente capaz e motivada para isso”- concluiu.

 

Artigo por Álvaro Paralta. Revisto por Ana Sofia Moreira.