Ciência e Saúde

QUALIDADE DO AR: COMO INFLUENCIA A SAÚDE INFANTIL

Um estudo recente desenvolvido pelo Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto (ISPUP) concluiu que a presença de certas substâncias no ar interior pode potenciar o desenvolvimento de doenças em crianças, como a asma e a obesidade.

Os investigadores do ISPUP analisaram a qualidade do ar interior em 20 escolas primárias no Porto. O objetivo foi verificar se a presença de determinados comportos na atmosfera das salas de aula estaria associada ao desenvolvimento de asma e de obesidade. No total, foram estudados 15 compostos, documentados como desreguladores endócrinos. A ação deletéria que diversos desreguladores endócrinos têm no corpo humano está já há muito documentada, mas estão a surgir dados novos e alarmantes nesta área.

Um desregulador endócrino é uma substância estranha ao corpo humano que possui um efeito sobre o sistema hormonal. De acordo com informação disponibilizada pelo Ministério da Saúde relativamente à Saúde Ambiental e Ocupacional, os desreguladores endócrinos podem mimetizar as hormonas endógenas ou estimular diretamente o sistema endócrino. Os efeitos destes compostos são devidos às similaridades químicas que partilham com as hormonas produzidas no organismo. Os desreguladores endócrinos podem ser sintéticos, de que são exemplo os solventes industriais e derivados, pesticidas, fungicidas, produtos farmacêuticos e conservantes, mas também compostos produzidos por diversas plantas, os fitoestrogénios.

No trabalho realizado no ISPUP, foram analisados dados de 815 crianças. Os desreguladores endócrinos foram quantificados em 71 salas de aula durante uma semana. Elevados níveis individuais e combinados de desreguladores endócrinos foram encontrados em salas de aula com maior número de crianças com asma e obesidade.

Em 2014, Cíntia Castro-Correia e Manuel Fontoura, do Serviço de Pediatria da Unidade de Endocrinologia e Diabetologia Pediátrica no Centro Hospitalar de S. João, publicaram um artigo de revisão sobre a influência dos desreguladores endócrinos no crescimento e desenvolvimento infanto-juvenil. Segundo Castro-Correia e Fontoura, as crianças são particularmente suscetíveis à ação destes compostos devido ao seu rápido metabolismo e frequência respiratória mais elevada. A infância é também uma fase crítica, pois os efeitos de exposição têm potencial para persistir na fase adulta.

Castro-Correia e Fontoura mencionam os possíveis efeitos dos desreguladores endócrinos no desenvolvimento de condições como puberdade precoce, síndrome de ovário poliquístico e cancro da mama em indivíduos do sexo feminino e infertilidade, alterações comuns do trato genital masculino, cancro da próstata e outros efeitos em indivíduos do sexo masculino.

O artigo, publicado pela revista científica Allergy, pode ser consultado online.