Ciência e Saúde Onde andam os nossos cientistas?

O BIÓLOGO PORTUGUÊS QUE TOCOU NOS QUATRO CANTOS DO MUNDO

Bruno Simões passou já pelo Reino Unido, Austrália e Brasil, mas Portugal foi o ponto de partida do seu percurso académico. O JUP foi conhecê-lo. Por Álvaro Paralta.

Tudo começou nos Açores, onde se licenciou em Biologia. A partir daqui o percurso é extenso: ruma a Portugal Continental, onde conclui o mestrado em Biodiversidade e Recursos Genéticos, na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto e parte para a Irlanda, onde se doutorou em Biologia Evolutiva, na University College Dublin.

Foi a falta de financiamento para projetos uma das razões que fizeram com que Bruno fosse procurar oportunidades no estrangeiro, assim que concluiu o mestrado. No nosso país, este problema condicionou muita da investigação que estava a ser feita e limitou a emergência de novos projetos. “Os centros de investigação restringiram, por isso, muita da investigação.” – comentou.

A esta razão acresce o facto de haver pós-doutorados como bolseiros, congelamento de salários e escassez de vagas de emprego em universidades portuguesas. Tudo isto tornou “uma carreira científica em Portugal algo pouco atrativo” – refere o biólogo.

De Portugal para o Mundo

Estavam reunidas as condições para descolar do país natal, em busca de melhores oportunidades. No caso, a oportunidade foi um doutoramento na Irlanda (University College Dublin), proporcionado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT), sob orientação de Emma Teeling, uma respeitada investigadora na área de genética de morcegos. “O meu doutoramento estudava a evolução da visão em mamíferos, mas especialmente em morcegos, principalmente a coevolução da visão e da audição (sonar ou ecolocalização).” – explicou o investigador.

Finalizado o doutoramento, prossegue investigando a evolução da visão em cobras, no âmbito do pós-doutoramento. “O meu pós-doutoramento foi feito no Museu de História Natural em Londres, numa equipa de cientistas visuais e herpetologistas […] tive tempo de fazer investigação por vários meses no Brasil (Instituto Butantã, São Paulo) e na Austrália (University of Western Australia, em Perth, e na Universidade de Adelaide).” – contou o biólogo.

Segue para o sul de Inglaterra, onde se instala “na cidade hippie de Totnes” e assume o cargo de Principal Molecular Biologist, na Applied Genomics. Ltd, fazendo consultoria ambiental. Esteve nove meses neste cargo. Como já se havia candidatado a uma “Marie Skłodowska-Curie Global Fellowship”, assim que obteve resposta afirmativa, mudou-se para Adelaide, na Austrália.

Bruno Simões trabalhou as áreas de zoologia, biologia evolutiva, ecologia, neurobiologia e genómica.
Bruno Simões trabalhou as áreas de zoologia, biologia evolutiva, ecologia, neurobiologia e genómica.

Começa a trabalhar no novo desafio em outubro de 2016, repartindo-se entre a Universidade de Bristol e a Universidade de Adelaide, na Austrália Meridional. Deste modo, acumula as funções de Fellow, em ambas as universidades, e de Professor Assistente Adjunto na Universidade de Adelaide.

“A minha Marie Skłodowska-Curie Global Fellowship expande a investigação que fiz no meu pós-doutoramento, estudando a evolução do sistema visual, principalmente a nível genómico (genes visuais), mas também a nível anatómico (óptica e anatomia de olho) e fisiologia (de olho e da retina) em cobras e em todos lagartos.” – expôs o investigador.

Bruno investiga como os squamata, cobras e lagartos, adaptaram o seu sistema visual a diferentes ecologias e habitats como, por exemplo, adaptação a meios subterrâneos. “Este estudo foi expandido depois de ter ganhado mais financiamento por parte do Australian Research Council na forma de uma Discovery Grant. Com esse financiamento contratei técnicos e estudantes de doutoramento para expandir este projeto.” – comentou Bruno Simões.

Em outubro de 2018, regressou a Bristol, no Reino Unido, tendo repartido atenção, até então, entre esta cidade e Adelaide, o que fará até que os projetos finalizem.

O futuro na área de investigação

Em Biologia Evolutiva, “as áreas emergentes são a Genómica, a Transcriptómica, a Proteómica, a Epigenómica e a Metabolómica, assim como o uso destas áreas em estudos de biologia estrutural e de DNA ambiental.” – referiu.

Segundo o investigador, a área da genómica está em rápida expansão. Esta rapidez é acompanhada pela eficiência, que se deve ao “desenvolvimento de tecnologias sofisticadas de sequenciação de DNA” que proporcionam uma “aquisição de dados […] mais simples e eficaz.”

No Reino Unido, onde se encontra atualmente, afirma haver muitos recursos. Não só os cursos são vocacionados para a investigação, como também há muito investimento nesta por parte das universidades. No entanto, a saída do país da União Europeia está a ter o seu impacto neste mecanismo. “Está a criar problemas, uma vez que não é certo que tipo de acesso as Instituições do Reino Unido terão a projetos europeus e como cientistas da União Europeia podem emigrar e viver no Reino Unido.” – referiu.

O sistema científico da Austrália é idêntico ao do Reino Unido, no entanto, “com a economia da Austrália a desacelerar, cortes em fundos para bolsas e universidades já estão a acontecer”. Em Portugal, “a qualidade da ciência […] é muito boa”, afirmou, apesar de ter indicado alguns pontos que devem ser melhorados, transversais a todas as áreas científicas. “O primeiro desafio é atrair os melhores cientistas do mundo para Portugal, contudo a falta de vagas permanentes nas universidades, financiamentos limitados, concursos a financiamento com procedimentos e avaliações obscuras e excesso de burocracia torna difícil atrair estes cientistas.” – comentou o investigador.

Partir para o estrangeiro ou ficar em Portugal?

O Biólogo, deixou sugestões de plataformas, através das quais os estudantes podem manter-se informados acerca de oportunidades académicas no estrangeiro, com diferentes tipos de financiamento: Euraxess e Evoldir são exemplos delas. A esta indicação, acresce ainda o conselho de procurar contactar investigadores da área na qual estão interessados.

Contudo, antes de deixarem o país, o investigador deixa o alerta de que há fatores importantes a ter em consideração, como o financiamento, salário e vida pessoal. “Fazer investigação fora de Portugal pode ser gratificante se a pessoa gostar de se aventurar fora da sua área de conforto, contudo pode ser emocionalmente difícil.” – comentou.

Este é um dos cenários possíveis, mas como “também se faz boa ciência em Portugal (alguma dela de topo) […] nem sempre é necessário emigrar para se ter uma carreira científica de sucesso.”- afirmou.

Num futuro próximo, não tenciona voltar para Portugal, mas já tem traçados planos para o futuro: “Espero […] conseguir ou uma senior fellowship ou um emprego como professor assistente (Lecturer) numa universidade europeia.” – concluiu.

O trabalho do investigador, bem como o seu contacto, podem ser encontrados online.


Onde andam os nossos cientistas?
 O JUP foi ao encontro de investigadores que estudaram no Porto e que estão a trabalhar no estrangeiro, no sentido de perceber os seus percursos académicos e perspetivas sobre as áreas em que trabalham. O impacte na decisão de quem se encontra a redefinir os seus objetivos académicos, ou a expansão de perspetivas a quem ainda está a dar os primeiros passos, são objetivos deste conjunto de artigos.