Ciência e Saúde

WINE TRACK 2018: VITIVINICULTURA MUNDIAL NO PORTO

O Centro de Congressos da Alfândega do Porto recebeu, no dia 26 de outubro, a edição de 2018 do Wine Track®. Com organização da Associação de Laboratórios de Enologia (ALABE) e a Sociedade dos Químicos Profissionais de França (Société des Experts Chimistes de France - SECF), o evento reuniu agentes responsáveis do sector vitivinícola europeu e mundial na discussão sobre a autenticidade e o combate à contrafação no setor.

Com o objectivo de “dar uma visão clara e realista para garantir a autenticidade e a rastreabilidade dos produtos do sector num sentido abrangente,  da videira ao consumidor”, o programa do Wine Track deste ano dividiu-se em palestras e debates em torno do problema e suas consequências, das técnicas científicas para a sua deteção e resolução e as sanções e enquadramento jurídico deste. Por outro lado, estiveram também presentes em stands as empresas e agentes promotores de técnicas e soluções para a problemática.

Entre os participantes contou-se com a presença de agentes ligados à produção do vinho, mas também à sua distribuição e consumo. Na área da regulação e monitorização estiveram presentes entidades como a Imprensa nacional casa da Moeda, a SOGRAPE, a Associação Comercial do Porto, o  Instituto dos Vinhos verdes e o Instituto de Vinhos do Douro e do Porto, a Organização Internacional dos Vinhos e da Vinha e a Câmara Municipal do Porto (CMP). Pela parte da CMP, foi Ricardo Valente, vereador da Economia, quem esteve presente na abertura do evento. Nas suas palavras, o apoio institucional da CMP ao convite dirigido pela ALABE mereceu uma aceitação dupla não só por ser considerado pelo executivo que a ligação entre o Vinho e a cidade é um activo estratégico mas também porque se trata de um evento relevante à sociedade do conhecimento.

O problema em debate

O problema foi desde o início enquadrado claramente pela apresentação do Doutor Jean Claude Ruf, coordenador científico da OIV.

A indústria vitivinícola é uma das mais prestigiadas na área da agronomia a nível mundial, contando com uma história milenar, mas também uma com uma significativa importância económica e social.  Com um volume de 243 milhões de hectolitros anuais de vinho consumido, dos quais Portugal e França detêm o maior consumo per capita e com um peso comercial estimado nos 30 biliões de euros, sendo os maiores importadores países desenvolvidos como a Alemanha, o Reino Unido e os Estados Unidos, o mercado tem vindo a ser visto como muito atractivo.

Com um maior número de produtos, uma maior quantidade e diversidade no consumo e uma maior competição, incluindo a emergência de novos produtores como a China e o Sudeste Asiático, este crescimento tem sido também acompanhado de impactos negativos. Para além dos que estão habitualmente associados ao processo de globalização, como a degradação da qualidade dos produtos ou a pressão sob os recursos, mas em especial a contrafação, reprodução parcial ou total de um produto usando o prestígio de uma marca ou de uma denominação de origem controlada, assim como a concorrência desleal, afirmação falsa de uso de certos modos de produção ou recursos para vantagem competitiva, os dois tópicos pervasivos do Wine Track ® 2018.

As sanções

Neste contexto, foi analisado o panorama do combate jurídico e legal das práticas de contrafação e autenticidade.

Por um lado, Alberto Ribeiro de Almeida, jurista do IVDP abordou as Denominações de Origem  Protegida, instrumento legal europeu para a promoção da autenticidade, que dá, entre outras, o mesmo peso legal ao nome do produto em proteção ao de uma marca comercial. Dois casos recentes do tribunal europeu de Justiça foram, nas sua opinião, injustos e contrários ao espírito de proteção do prestígio das marcas. O primeiro um recurso por parte do IVDP sobre a decisão deste tribunal de permitir a comercialização de um Whisky com o nome Port Ruighe, em claro confronto com a DOP do vinho do Porto, ao mesmo tempo que equiparando Whisky com Vinho do Porto e não vinho Licoroso. Já a segunda, mais grave, a comercialização de um gelado alegadamente feito de champanhe com o nome Champagner Sorbet

Já Pedro Portugal Gaspar descreveu neste âmbito o trabalho da ASAE, organismo que dirige. O combate à contrafação foi durante vários anos exclusivamente centrado no vestuário mas recentemente foi desenvolvido um foco no sector. Daí ter sido criada uma brigada especial dentro da agência para a fileira do Vinho, o Laboratório de Bebidas e Produtos Vitivinícolas. Neste âmbito foi de destaque a realização de duas grandes operações de inspeção em Julho e Dezembro de 2016 e 2017, respectivamente. Nestas foi possível obter 1700 garrafas no valor de cerca de 250 mil euros (2016) e 16 garrafas da prestigiada marca “Pera Mansa” no valor de 852 mil euros, representando, claramente, uma necessidade de fiscalização prioritária.

As técnicas

Por causa desta debilidade regulatória é que é a própria indústria a desenvolver tecnologias baseadas na ciência de ponta para prevenir a contrafação e melhorar a autenticidade através da Ciência e da tecnologia como é imagem clara a grande maioria das palestras do Wine Track ® 2018.

Desde as tecnologias de selagem cada vez mais avançadas e integradas com o digital, incluindo a possibilidade de aceder a todo o percurso produtivo através destes novos produtos, passando pela tecnologia do blockchain, visitando a própria possibilidade de entender a origem do gás de um vinho até às mais tradicionais técnicas da química analítica, incluindo a análise de isótopos.

Tópicos que, para Bernard Medina, presidente do conselho científico da OIV, representam bem como a tecnologia tem um papel essencial em todas as empresas, fazendo da indústria vitivinícola uma das mais avançadas do sector agroalimentar. “A tecnologia é cada vez mais acessível e de uso comum. De facto, no que toca à autenticidade e rastreabilidade, aquilo que estamos a falar não são os milhares de dólares mas sim cêntimos por cada garrafa. Em Bordéus onde vivo, é universal para as 12 mil empresas existentes procurar os avanços tecnológicos pelo que a tecnologia de ponta não fica pelas empresas mais fortes.”, contou Bernard Medina.

De destaque foi a apresentação de Pécheyran, professor na Université de Pau et des Pays de l’Adour. Sob o mote “identificação rápida e inequívoca de impressões digitais de garrafas”, os mais incautos podiam esperar que o professor apresentasse um processo de recolha e reconhecimento rápido de impressões digitais de produtos contrafeitos, mas o rigor e a complexidade dos estudos apresentados iam muito mais além disso. Com base no desenvolvimento de uma nova tecnologia laser de pulsos mais lentos, a sua equipa conseguiu aperfeiçoar um método para realizar a amostragem da garrafa e dos rótulos de uma forma menos invasiva do que as tecnologia laser existentes. Isto de forma a que, com os vestígios retirados da garrafa fosse possível fazer uma análise físico-química de identificação da autenticidade dos vinhos pelos materiais de traço, incluindo o tipo de sílica, do vidro da garrafa. Ainda que a aplicação fosse tentada tanto em rótulos como na garrafa, o método que cedeu resultados claramente positivos foi o da amostragem do vidro da garrafa, permitindo a correcta distinção de várias garrafas de exemplares Chineses contrafeitos contra garrafas de Château Petrus, a segunda marca de vinho mais cara do mundo.

Balanço

O balanço por parte da organização foi representativo da boa colaboração e liderança das duas associações no desenvolvimento da ciência e tecnologia ligada ao vinho.

Para o Marcel Dal Pont, tratou-se no final de um evento “magnífico”. “Magnífico pela qualidade dos conferencistas, da indústria à academia e por ter dado todos os detalhes importantes sobre a qualidade, autenticidade, integridade e certificação do vinho a um nível mundial”, contou.

Já para o Luís Simões, presidente da ALABE, tratou-se de uma conferência de elevada qualidade que veio responder a preocupações emergentes do sector, apesar do problema da contrafação não ser tão negativo como em alguns países.

“Foram abordados aspectos científicos, técnicos, jurídicos e comerciais e foi cumprido um dos objectivos da associação que é divulgar o conhecimento pelos associados e pela sociedade em geral”. “Não há dúvida que o que estava projectado foi atingido, talvez até ultrapassado, em termos de número de participantes e em termos dos temas e qualidade dos tópicos discutidos.”, contou Luís Simões.

A ALABE é uma associação sem fins lucrativos estabelecida em 1996 que conta com 90 instituições associadas com origem no sector público e privado. Entre as suas ações contam-se Realização periódica de colóquios, sessões-debate e acções de formação e a organização e coordenação de circuitos interlaboratoriais de análise físico-química e sensorial.