NEONICOTINÓIDES: MENOS UMA PREOCUPAÇÃO PARA AS ABELHAS…E NÃO SÓ – Jornal Universitário do Porto
Ciência e Saúde

NEONICOTINÓIDES: MENOS UMA PREOCUPAÇÃO PARA AS ABELHAS…E NÃO SÓ

A União Europeia aprovou recentemente a proibição do uso de inseticidas neonicotinóides em culturas ao ar livre. Banir estes inseticidas, danosos para abelhas e muitos outros animais, representa um passo vital para a proteção da polinização na agricultura.

Os estados-membros apoiaram no dia 27 de abril a proposta da Comissão Europeia para a proibição do uso exterior de três inseticidas neonicotinóides – Imidaclopride, Clotianidina e Tiametoxame. A decisão de banir estes inseticidas foi lançada após os resultados de vários relatórios elaborados pela European Food Safety Authority (EFSA), nos quais se concluiu que os compostos eram danosos para as abelhas. De acordo com o Pesticide Action Network, os inseticidas neonicotinóides representam também perigo comprovado para aves e outros seres vivos, incluído humanos.

No culminar de anos de acesos debates entre grupos protetores do ambiente, apicultores, cientistas e as empresas de produção, prevê-se que a decisão europeia leve à erradicação do uso destes inseticidas no exterior até ao final deste ano. Em 2013, a Comissão já teria restrito o uso dos três inseticidas em culturas “bee-attractive”, ou atrativas para abelhas, como milho, girassol e colza. De acordo com a Nature, esta nova limitação do uso de pesticidas neonicotinóides irá levar à diminuição do valor de um mercado avaliado em cerca de 1,5 biliões de dólares americanos por ano, maioritariamente para as empresas Bayer e Syngenta.

Segundo a Direção Geral de Alimentação e Veterinária (DGAV), o imidaclopride é extremamente perigoso para as aves e para as abelhas e, por isso, não deve ser utilizado na época de floração. A clotianidina, por outro lado, é muito tóxica para os animais aquáticos. Por fim, o tiametoxame combina os perigos dos dois e, por isso, é recomendado que não seja utilizado na proximidade de cursos de água nem aplicado durante épocas de floração.

O perigo destes pesticidas é suportado por diversos estudos, como o conduzido por Richard Pywell, do Centre for Ecology and Hydrology (Reino Unido), que concluiu que a exposição a neonicotinóides leva a uma maior vulnerabilidade às estações frias e compromete o sucesso reprodutivo, algo que é também referido por Geoffrey Williams, da Universidade de Berna, na Suíça. O investigador e a sua equipa descobriram que abelhas-europeias macho expostas a neonicotinóides produzem menos espermatozoides que as não-expostas. O número de rainhas também é diminuído, de acordo com um estudo da Universidade York, em Toronto, e conduz a uma redução do tempo de vida das obreiras. Neste estudo, foi também confirmado que a toxicidade dos neonicotinóides duplicava quando combinados com um fungicida também frequentemente utilizado. Investigadores da Universidade de Newcastle (Reino Unido) concluíram também que a exposição afetava a memória olfativa e a aprendizagem das abelhas.

Sabe-se atualmente que os efeitos dependem de diversos fatores, como espécies, aditivos e tipos de culturas. A Bayer, em comunicado, tem rejeitado muitos dos resultados destes estudos, garantindo que são inconclusivos.

Sementes revestidas com neonicotinóides. Fonte: National Geographic Creative, fotografia de Anand Varma.
Sementes revestidas com neonicotinóides. Fonte: National Geographic Creative, fotografia de Anand Varma.

Segundo o The Guardian, a Alemanha já tinha banido o uso de oito dos pesticidas neonicotinóides após um decréscimo muito elevado na população de abelhas em 2008. Já que em 99% das abelhas mortas havia acumulação de clotianidina, que tinha sido utilizada para tratamento de sementes de milho doce. Imidaclopride esteve também ligado à morte de abelhas-europeias em França em 1999, altura em que foi banido para uso de tratamento de sementes de girassol.

Embora o foco seja em espécies polinizadoras, de acordo com a American Bird Conservancy (ABC) e com a U.S. Environmental Protection Agency (EPA), as aves e os sistemas aquáticos são também fortemente afetados. Sabe-se que as sementes expostas a neonicotinóides levam à perda de direção e redução do peso de algumas espécies de aves migratórias. De acordo com Cynthia Palmer, gestora do Programa Pesticidas da ABC, “estes compostos têm potencial para afetar integralmente toda a cadeia alimentar”. Isto deve-se “à persistência dos neonicotinóides, a sua propensão para infiltrar água subterrânea e o seu efeito cumulativo e amplamente irreversível em invertebrados”.

O toxicologista Pierre Mineau, da Universidade de Carleton, em conjunto com Palmer, elaborou em 2013 um relatório sobre o impacto destes pesticidas em aves e nos sistemas aquáticos, em que é referido que um único grão de milho coberto com neonicotinóides é suficiente para matar uma ave de pequeno tamanho e que o consumo diário de apenas um décimo de uma semente de milho, exposto a estes compostos durante a época de reprodução, leva a danos reprodutivos.

Introduzidos na década de 90 em resposta à resistência verificada em algumas pragas e às preocupações com outros pesticidas, os neonicotinóides são a classe de pesticidas mais amplamente utilizada no mundo. Estes compostos são neurotóxicos nos insetos e foram escolhidos por serem menos tóxicos do que os seus antecessores. No entanto, segundo Jean-Marc Bonmatin (The National Centre for Scientific Research, França), os “neonicotinóides são 5.000 a 10.000 vezes mais tóxicos que DDT”, um dos inseticidas utilizados anteriormente.

Uma das vantagens destes pesticidas no combate às pragas de insetos é o facto de serem absorvidos pelos tecidos das plantas e terem a potencialidade de afetar insetos sugadores, como os afídeos, por exemplo. São habitualmente aplicados nas sementes para que a planta os incorpore ao germinar.

O Pesticide Action Network afirma que existem muitas alternativas ao uso destes inseticidas, mas que estas são pouco divulgadas. Assim, a organização publicou uma lista de alternativas químicas e não químicas e está a preparar um relatório sobre as mesmas.

Segundo investigadores holandeses, como Hayo Velthuis, da Universidade de Utrecht e Adriaan van Doorn, da BumbleConsult, 35% da produção agrícola mundial depende de polinizadores. Na Europa, estima-se também que 80% das espécies selvagens depende de abelhas para a polinização.