Ciência e Saúde

DENGUE: COMO PODE UMA BACTÉRIA ALTERAR PADRÕES DE TRANSMISSÃO?

Uma equipa de investigadores portugueses e brasileiros descobriu que, ao contrário do que é afirmado, infeções com Wolbachia em mosquitos conduzem a um maior potencial de transmissão de dengue. Ainda assim, é impossível prever os efeitos da bactéria nos mosquitos através de modelos matemáticos.

Jessica King e Gabriela Gomes, duas investigadoras do Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos da Universidade do Porto (CIBIO-InBIO) , localizado em Vairão, fazem parte da equipa internacional que se dedicou ao estudo do efeito da bactéria Wolbachia nos mosquitos da espécie Aedes aegypti envolvidos na transmissão de vírus como o dengue ou o Zika. Este estudo, publicado pela Nature Communications, centrou-se nas regiões do Brasil e do Vietname, dois dos países com mais casos de infeção por dengue reportados, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS).

Em estudos anteriores, tinha-se verificado que a infeção com algumas estirpes de Wolbachia poderia ser utilizada como forma de controlo biológico do vírus do dengue em laboratório, pois reduzia a replicação do vírus. Segundo Ary A. Hoffmann, da The University of Melbourne, a Wolbachia é frequentemente utilizada para controlo biológico de diversos vírus transmitidos por insetos.

O World Mosquito Program foi uma iniciativa australiana que conduziu à libertação de mosquitos infetados com Wolbachia em 10 países – Austrália, Brasil, Colômbia, Indonésia, Sri Lanka, Índia, Vietname, Kiribati, Fiji e Vanuatu – a partir de 2011, para controlo da população de mosquitos transmissora de doenças.

Através da análise de populações de mosquitos no Brasil e no Vietname, o trabalho apresentado no artigo conclui que a Wolbachia aumenta a suscetibilidade de mosquitos Aedes aegypti à infeção por dengue. Os resultados obtidos pela equipa traduzem-se num aumento no sucesso de transmissão do vírus e na necessidade de catalogação de outros efeitos que diferentes agentes possam ter nos mosquitos. Isto, pois, a infeção com Wolbachia conduz também a alterações na suscetibilidade dos mosquitos a outros agentes.

O estudo indica também que os modelos matemáticos utilizados para previsões são pouco adequados para o estudo das interações entre o mosquito, o vírus que transmite, a bactéria Wolbachia e o ambiente.

De acordo com a OMS, o mosquito Aedes aegypti é o principal vetor do vírus causador de dengue (DEN). A transmissão é feita através da picada de mosquitos fêmeas portadores do vírus após o consumo de sangue de outro indivíduo infetado. Predominantemente associado a climas tropicais e subtropicais, o dengue na sua forma mais severa é a uma das maiores causas de morte em diversos países asiáticos e sul-americanos.