Ciência e Saúde

ANIMAIS DE LABORATÓRIO: AINDA VANTAJOSOS OU “COISA DO PASSADO”?

Ontem foi o Dia Mundial do Animal de Laboratório. Em Portugal, segundo os últimos dados disponíveis pela Direção-Geral de Alimentação e Veterinária (DGAV), referentes a 2014, cada vez são utilizados menos animais em contexto experimental. Há muitos anos que os animais têm estado por detrás da investigação clínica, mas as opiniões dividem-se.

De acordo com a DGAV, em 2014 foram utilizados mais de 25 mil animais em investigação científica, em Portugal. O número pode parecer elevado, mas quando comparado com o registado em 2012, em que foram utilizados 81 mil animais, verifica-se uma diminuição considerável. As espécies mais utilizadas são os roedores (ratos e murganhos), seguidos dos peixes-zebra. Segundo estas estatísticas, a maioria dos animais destina-se à investigação básica em sistema nervoso e imune. De acordo com a cientista Aysha Akhtar, afiliada ao Oxford Center for Animal Ethics, “as investigações básica e aplicada têm como propósito a compreensão da biologia humana e das ciências da saúde, promovendo a segurança e eficácia de potenciais tratamentos”.

A experimentação animal é, há décadas, um dos hot topics de discussão entre ativistas pelos direitos dos animais e cientistas. Por um lado, existe a crença de que os cientistas dão pouca atenção aos direitos destes animais e permanecem indiferentes ao seu sofrimento, por outro, foi precisamente o uso de animais em laboratório que permitiu fortes avanços no desenvolvimento de fármacos e outras terapias.

Em Portugal, o decreto-lei nº 113/2013, de 7 de agosto é a legislação nacional que transpõe a Diretiva Europeia 63/2010/CE e que protege os animais que são utilizados em contexto laboratorial, aplica a política dos 3R’s – Replacement, Reduction and Refinement – ou substituição, redução e melhoramento do bem-estar dos animais de laboratório. No entanto, esta legislação contempla apenas o uso de vertebrados e de cefalópodes, deixando de fora muitos outros modelos animais frequentemente utilizados, como os nemátodos, as moscas, entre outros.

Akhtar, num artigo publicado pelo The Humane Society Institute for Science and Policy, identifica os pontos fracos da experimentação animal. Alguns dos argumentos mais fortes são o sofrimento dos animais, os custos de manutenção e o baixo sucesso de tratamentos já muito estudados e comprovados em modelos animais. Este último estará relacionado com as disparidades entre a patologia no modelo e a patologia nos humanos, as diferenças genéticas e fisiológicas, bem como o ambiente controlado (e pouco natural) em que os animais são mantidos.

No entanto, existem formas de tornar o ambiente em que os animais são mantidos mais estimulante e natural, permitindo que produzam também melhores resultados. Isto é sugerido desde a década de 40, quando Donald Hebb levou um grupo de ratos de laboratório para casa e os deixou andar livremente a brincar com as suas filhas. Segundo Hebb, estes tinham melhores capacidades de aprendizagem que os restantes ratos do laboratório. Joseph Garner, investigador na área do comportamento na Universidade de Stanford (Califórnia), afirma que “para termos respostas semelhantes às humanas nos modelos temos de os tratar mais como humanos”. E assim surgem biotérios e laboratórios em que as gaiolas se enchem de pedações de cartão, cordas e brinquedos.

Ainda assim, atualmente, as vozes contra a experimentação animal ecoam cada vez mais. Com inúmeras petições a exigir o fim do uso de animais em contexto científico, procuram-se alternativas. Estas alternativas já existem? A resposta é sim e não. De acordo com diversos cientistas, culturas de células e modelos de órgãos são uma das alternativas viáveis para o uso de animais, no entanto, as respostas devem ainda assim ser testadas em outros organismos multicelulares antes de serem aplicadas em humanos.

O projeto Athena (Advanced Tissue-engineered Human External Network Analyzer), criado pelo Los Alamos National Laboratory (EUA), é um dos grupos pioneiros na conceção de simuladores de órgãos para a medição da resposta a fármacos. No Porto (I3S), Pedro Granja e a sua equipa trabalham para a conceção de modelos da mucosa gástrica e intestinal, um contributo para um futuro com investigação científica independente de animais.

Só no Porto, as diversas unidades de investigação possuem grupos a trabalhar com modelos animais no sentido de descodificar diversas doenças. No Instituto de Investigação e Inovação em Saúde da Universidade do Porto (i3S), o Dr. José Bessa e o seu grupo de investigação usam peixes-zebra para estudar os mecanismos moleculares envolvidos em diversas doenças pancreáticas como a diabetes; o grupo do Dr. Nuno dos Santos estuda interações entre hospedeiros e organismos patogénicos utilizando robalo como modelo animal; o grupo da Dra. Mónica Sousa usa rato como modelo para o estudo de doenças neurodegenerativas raras e lesões de espinal medula, mas existem muitos outros. No Centro Interdisciplinar de Investigação Marinha e Ambiental (CIIMAR), existem também grupos que usam modelos animais para o estudo de diversos processos evolutivos e resposta a poluentes, por exemplo.

A descoberta de muitos dos fármacos que conhecemos hoje e a investigação nas áreas do cancro, das perturbações mentais, das doenças infeciosas e de muitas outras áreas é dependente do uso de modelos animais. No entanto, é imperativa a busca por alternativas menos eticamente questionáveis e mais próximas da realidade.