Ciência e Saúde

CONGRESSO CIENTÍFICO AEFFUP: SER FARMACÊUTICO COM VALOR

O “XII Congresso Científico AEFFUP - Valor do Farmacêutico” decorreu nos dias 24 e 25 de novembro e abordou os principais desafios atuais e futuros à profissão do farmacêutico.

 

O XII Congresso Científico AEFFUP foi constituído por um programa bastante abrangente que contemplava as mais diversas áreas e saídas profissionais do Mestrado Integrado em Ciências Farmacêuticas. Foram convidados vários oradores que eram divididos nas diferentes sessões plenárias – Inovação em Tecnologias e Saúde e Ensaios Clínicos. Além disso, houve lugar para sessões paralelas que abordaram, com mais detalhe, outras áreas específicas (Farmácia Comunitária, Farmácia Hospitalar, Análises Clínicas, Indústria Farmacêutica, Farmacêuticos na Administração do SNS e Distribuição Farmacêutica).

O presidente da AEFFUP e presidente da comissão organizadora, Marcos Teixeira, deu o mote para o tema do congresso referindo que “o valor do farmacêutico começa no valor do estudante do Mestrado Integrado em Ciências Farmacêuticas (MICF)”, na sessão de abertura do evento. Salientou ainda que é a pedagogia ativa e de proximidade e a irreverência dos estudantes, que leva a um MICF eficaz, num processo de tentativa e erro. Não só é fulcral o papel dos estudantes e da academia na canalização da fração de valor de cada estudante, como também o setor profissional deverá incitar nos jovens o estímulo pela profissão futura.

Ainda na sessão de abertura, Sónia Carvalho, membro da comissão científica, perspetivou um congresso focado na atualidade e com temas desafiantes. O evento abordou o valor do farmacêutico na globalidade e de interesse para jovens e futuros farmacêuticos inovadores, empreendedores e ativos.

Na conferência de abertura a consciencialização da plateia para uma profissão jovem e que tem de tomar decisões no meio da mudança foi um dos pontos do discurso de Carlos Afonso, professor na Faculdade de Farmácia da Universidade do Porto (FFUP). O largo espetro do curso não permitem aos farmacêuticos e estudantes “descansar à sombra desse valor”.

Com o avanço tecnológico, as “instituições de saúde podem ser esmagadas”, com possibilidade de ocorrer dispensa de pessoas. Nesse sentido, Carlos Afonso reforça a posição do farmacêutico como prestador de saúde que, a vários níveis, deve ser feita com entusiasmo (adquirido ou não) versatilidade, trabalho e talento. Por fim, o professor sublinha a importância da partilha e ensino do conhecimento e da continuidade dos estudos após a conclusão do curso. Deste modo, é possível formar farmacêuticos “com valor, de valor e com valores”.

Inovação em Tecnologias e Serviços de Saúde

Seguido da abertura, tomaram da palavra dois oradores para abordar a “Inovação em Tecnologias e Serviços de Saúde”. Este tema foi debatido de uma perspetiva económica em duas conferências: “Inovar com qualidade de vida e equidade” e “Sustentabilidade na avaliação de tecnologias da saúde”.

Julian Perelman, professor da Escola Nacional de Saúde da Universidade Nova de Lisboa, explicou que 17,1% das despesas de saúde per capita se devem às novas tecnologias. Isto tem um custo adicional que pode levar ao aumento de impostos para assegurar fundos. “A saúde não é cara, é uma questão de eficiência”, aponta o professor.

Para avaliar estas questões é necessária uma avaliação fármaco-terapêutica para confirmar se a tecnologia tem valor terapêutico acrescentado, uma avaliação fármaco-económica que pretende fazer um balanço dos custos e das consequências e, por fim, uma discussão política que “tenha em conta o custo de oportunidade e não apenas a disponibilidade para pagar”. Assim define-se um valor aceitável que não prejudique a saúde da população.

No seguimento da sessão anterior, levantou-se a questão da sustentabilidade na avaliação de tecnologias e utilização de serviços de saúde. João Paulo Cruz, professor da Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa e Coordenador da Unidade de Gestão do Medicamento e Dispositivos Médicos da Administração Central do Sistema de Saúde (ACSS), afirma que não é possível medir resultados em saúde de forma sistematizada.

Análises de benchmarking sobre as inovações podem ser realizadas para avaliar a sustentabilidade do uso do medicamento. “A utilização de medicamentos biossimilares pode constituir um potencial de poupança”, acrescenta o orador.

Farmácia Comunitária

Paralelamente a outras sessões, decorreu a sessão ‘Farmácia Comunitária’. Foram discutidos dois problemas: a não adesão da população à terapêutica e as suas consequências em termos monetários e o envelhecimento da população como um dos fatores responsáveis pela não adesão.

“Estima-se mundialmente que cerca de 50% dos doentes crónicos não adiram à terapêutica, com um impacto económico de cerca de 105 mil milhões euros por ano”, explicou Filipa Alves da Costa, membro da Ordem dos Farmacêuticos. A solução da questão passa por uma reconciliação da terapêutica em Farmácia Comunitária, o uso de preparações individualizadas do medicamento (PIM) e ainda a consulta farmacêutica, que tem vindo a ser estudada e discutida para uma possível implementação em contexto comunitário.

Indústria Farmacêutica

No segundo dia de congresso, a sessão de abertura focou-se na Indústria Farmacêutica, onde Filipa Costa, Diretora-Geral da filial portuguesa da Janssen, companhia farmacêutica do Grupo Johnson&Johnson foi oradora. Filipa abordou o percurso profissional na Indústria e as competências desejadas numa companhia Farmacêutica.

Apesar da sua licenciatura em Engenharia Química pela Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP), explica que “o farmacêutico é polivalente e possui características diferenciadoras muito apetecíveis no mundo da Indústria”. A indústria farmacêutica continua a ser uma área fundamental para a saúde da população e acolhe diversas áreas, desde Ciências da Saúde até Gestão e Economia.

Na mesa redonda, discutiram-se alguns casos práticos da indústria farmacêutica e sobre a experiência profissional dos oradores presentes em empresas como European Medicines Agency (EMEA), Celgene, Pfizer entre outras. Após uma breve apresentação de várias personalidades como Nuno Cunha, Marta Martins, Ricardo Rodrigues, Isa Costa, Frederico Saraiva, Rita Pinto, Manuel Sousa, Lara Boaventura e Ana Cláudia Costa, houve a exposição das diversas áreas de atuação a nível da industria, desde a farmacovigilância, business analyst até à gestão de produto.

Quando questionados sobre qual o segredo para o sucesso respondem que, apesar do desafio, a complexidade e a constante exigência de inovação em saúde exige uma constante vontade de adquirir conhecimentos, espírito empreendedor, atitude positiva e uma grande dose de capacidade de trabalho. Palavras como perseverança, motivação e boa capacidade de comunicação também foram uma constante – “A emoção e a atitude são características extremamente importantes para a área das vendas”, acrescentou Manuel Sousa, profissional da indústria farmacêutica com cinco anos de experiência em diferentes áreas.

“Não se fiquem por Portugal, há inúmeras oportunidades lá fora.”

Ricardo Rodrigues, medical advisor na Novartis Farma na área de Imunologia e Dermatologia também deixou sugestões. “Não se fiquem por Portugal, há inúmeras oportunidades lá fora. Os farmacêuticos possuem uma boa formação e assumem lugares de liderança estratégica e de equipas nas áreas terapêuticas em funções outrora ocupadas por médicos”, aconselhou.

Ensaios Clínicos

Na sessão plenária de Ensaios Clínicos, Raquel Costa, responsável de Farmacovigilância Global da Bial, abordou a temática dos Ensaios Clínicos, tecnologia e a transformação com Carlos Maurício Barbosa, presidente da Comissão Científica, como moderador.

Mais tarde, foi aberto um painel de debate onde Joaquim Cunha, Diretor Executivo do Health Cluster Portugal revela o seu desejo em “transformar Portugal num player competitivo na investigação, desenvolvimento, fabrico e comercialização de produtos e serviços associados à saúde”. Neste painel, também foi passada uma visão geral sobre os intervenientes e o papel de um monitor na prática de um ensaio clínico, o papel do farmacêutico enquanto gestor da qualidade nas fases clínicas e bioanalítica e até foram expostos assuntos como questões éticas em investigação com seres humanos. “Não há boa ciência sem afirmar a ética à priori”, afirma Mara Freitas, responsável pela Garantia de Qualidade da Blueclinical e Gestora de garantia da Qualidade na Blueanalytics.

O encerramento do XII Congresso Científico AEFFUP deu-se com uma iniciativa da AEFFUP, em parceria com a Glintt, Ordem dos Farmacêuticos e Porto4Ageing com a apresentação do Pharma Start & Solve. O concurso consistia na apresentação de ideias inovadoras e projetos empreendedores para serem aplicados na resolução do problema “Adesão da população idosa à terapêutica em contexto de Farmácia Comunitária”. A equipa vencedora foi a equipa MAP, constituída pela Júnia Alves, João Pedro Almeida e Ana Rita Franco, estudantes do Mestrado Integrado em Ciências Farmacêuticas na FFUP.

Ficaram ideias positivas. “O congresso foi definitivamente uma experiência enriquecedora, visto que pudemos alargar um pouco o nosso espectro de possíveis saídas profissionais e pudemos contactar e receber conselhos de pessoas que já estão no mercado de trabalho há algum tempo”, comenta Alexandra Duarte, estudante da FFUP.